Pai, filho e futebol.

Agora a pouco o Flamengo acabou de perder a final da Copa do Brasil para o Cruzeiro, em uma disputa de pênaltis, que segundo meu irmão, teve uma atuação patética do goleiro rubro negro.

Quando mais novo, nos tempos de escola, lembro bem que sempre fui um dos últimos a ser escolhido na hora da divisão dos times de futsal, o que me deixava pra baixo, apesar de saber da minha condição enquanto perna de pau. A solução foi jogar na defesa e usar meu peso extra para derrubar os melhores da turma. Me recordo também dos amigos que viam futebol, comentavam a respeito, discutiam calorosamente e digladiavam para provar o porquê seu time do coração era o melhor, enquanto isso eu pensava naquele desenho ou jogo que passei o final de semana assistindo. Coisa de infância, sabe.

O ponto é o seguinte, nunca fui chegado em futebol, como devem ter percebido, o que deixava meu pai chateado antigamente, “Você num acha que joga demais meu filho? Gosta de bola não?” dizia o grande S. Eu ficava sem jeito por não corresponder a esse tipo de expectativa. Meu pai torce para o Flamengo, uma das poucas coisas que o faz vibrar de alegria, então como todo filho, acabei começando a torcer para o mesmo time, como forma de nos aproximar. Mesmo sabendo que o flamengo capenga com força desde sempre.

Meu irmão começou torcendo para o Fla também, mas acabou virando São Paulino com o passar dos anos, coisa que não aconteceu comigo, afinal ainda sinto essa vontade de agradar, mesmo que seja uma vontade para atender uma demanda que eu mesmo criei.

Hoje, enquanto o jogo rolava, estava no quarto jogando Naruto (pois é), mas estava ouvindo o caminhar do jogo através dos ruídos da televisão da sala, e a queima ou não de fogos de artificio, que eventualmente rola nessas partidas importantes. Foi engraçado, porque meu pai estava de saída para o serviço quando falou no grupo da família, aquele do aplicativo verde, “R, como está o jogo?”, e meu irmão retrucou dizendo que estava bem equilibrado e que iriam para os pênaltis.

A partir daquele momento fiquei de orelhas em pé, para qualquer ruído fora do comum. Passados alguns minutos ouço Galvão berrar algumas vezes, porém ele deu um berro bem mais duradouro que os anteriores, naquele momento uma leve tensão me correu o corpo. Fogos de artifício estourando na vizinhança (moro no interior de MG, atualmente). Cruzeiro campeão e meu pai saiu para trabalhar. Me veio um certo desapontamento sabe, mas tudo bem, não é algo que faça diferença para minha pessoa por si só, entretanto faz para o meu velho, e saber que ele se animou com algo, me deixa feliz. De qualquer forma, mais sorte pra ‘nosso’ time na próxima, não é pai?

(ah, parabéns aos cruzeirenses)

 

Escrito ao som de: The Outfield – Your Love

 

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Nem mesmo eles estavam preparados

Das maiores dificuldades que enfrentei na vida, certamente acertar os ponteiros com meus pais figura dentre as mais difíceis, chegando a ser um processo delicado e minucioso.

Estava com o bloco de texto aberto para elaborar um post sobre música, quando de repente a janela do Discord começa a piscar na barra de tarefas, e um amigo manda mensagem comentando a dificuldade que existe na relação entre sua genitora. Me perdi em pensamentos e comecei a revisitar momentos muito difíceis que vivi, com essa temática.

Cada um sabe o peso dos próprios problemas, e longe de mim ficar medindo tragédia com esse amigo, ou qualquer um que venha ler este singelo relato, mas lembro bem da relação complicada que tive principalmente com meu pai. Segundo minha mãe e minhas viagens introspectivas, cheguei a conclusão de que boa parte dos meus problemas estão ligados a semelhança que existe entre o temperamento de meu pai e deste que vos fala. Nunca concordamos com nada mas sempre tomamos as mesmas escolhas, dadas as devidas proporções. A sintonia era tão grande que nos tempos de escola, usava essa noção para tomas decisões que possivelmente deixariam o homem zangado, coisas como “Ah, vou esticar o horário desse rolê porque sei que meu velho não vai ligar, afinal eu não ligaria se estivesse no lugar dele”.

Outra parte engraçada está naquela ideia de que os pais sempre sabem o que estão fazendo, afinal eles são nossas primeiras referências. Meu velho, me desculpe, mas seus pais e os meus estão tão perdidos quanto eu e você. A diferença é que eles são mais experientes em resolução de problemas e um pouco mais sangue frio, justamente porque não querem nos preocupar com aquilo que tira o sono deles.

No final das contas só precisamos ser mais pacientes com os velhos, sabe. Entender que eles foram moldados sob outras diretrizes, e que muitas vezes podem ter sido vítimas disso. O elo que existe entre nós e eles certamente é muito forte e aguenta quase todo tipo de pancada, mas não é por conta disso que vamos dificultar as coisas, não é?

 

Escrito ao som de: n u a g e s – Dreams